domingo, 14 de outubro de 2018

IV. Da mítica

Na Quinta-feira, o professor deu a aula por encerrada pouco depois das dez da noite. Não comprara bilhete. Estava cansado e carregava uma mochila às costas. Mas postado em frente à porta principal da Faculdade, ainda hesitava. Em meu redor, rapazes e raparigas estavam sentados em pequenos ajuntamentos, sobre os degraus. Fiquei ali por um instante, desemaranhando com mais vagar que o habitual os fios entrelaçados dos auriculares. Queria respirar por um instante aquela tensão premonitória com que aguardamos as longas noites de boémia. Quando me senti satisfeito, resolvi-me a ir e prossegui.

Vogava contra a corrente. Eu, descia a alameda; eles, subiam: conjuntos maiores e menores, compostos de rapazes e raparigas, murmurando diálogos na distância ou cantando. Traziam na mão as suas garrafas, já deslacradas, com que antecipavam a festa. As meninas capturam toda a minha atenção transiente: vinham extensamente maquilhadas, agitando cores berrantes em torno do corpo, exibindo a redondez do busto em decotes mais descidos que o habitual. Os rapazes podiam ser eu, nós, outrora. Parecia um anoitecer entre fantasmas, tornando a aparecer distintas na minha mente as memórias de outros anos.

Como o daquele em que, caminhando num grupo assim, escalei a alameda, precocemente etilizado por um uísque velho, tendo feito desaparecer a garrafa nos confins dos arbustos que ladeiam o edifício da Faculdade antes de penetrar no recinto. Como aquele outro em que, tendo ficado para o final da festa, quando os primeiros alvores vêm dispersar os gatos pardos e alguém começa a varrer o manto de plástico que cobre o chão, me veio cair nos braços uma rapariga chorosa, que logo tratei de consolar. Como esse em que a mão que eu tanto queria apertar, morreu delicadamente na minha, num afago quente e húmido, enquanto eu a conduzia para a segurança de um recanto a salvo da multidão.

À medida que caminhava, ouvia dentro de mim, cada vez mais perceptível, o apelo a ir com eles, a tomar corpo com a turba, a amanhecer tardiamente no feriado. Só posso dizer que não respondi a este apelo. E, ao contrário do que pensava, fui feliz.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

III. Da aula magna

Vocês conhecem-me. Ou talvez não. Não importa. O que importa é que um destes dias fui à Clássica para assistir à primeira aula do meu Mestrado. Acabei a beber copos. Se me conhecessem, saberiam que o desenlace seria forçosamente este.

Emergi do Metro da Cidade Universitária pouco depois das seis da tarde. Os restos da aula magna do Marcelo escoavam-se em trajes negros e colares de Doutor, desde a entrada frontal da Reitoria até à Faculdade de Direito, num fiozinho estreito e intermitente. Sobre o novo empedrado da Alameda, erguera-se um palco. Uma multidão de veteranos e caloiros agitava-se na sua sombra, electrificada por aquele ruído a fazer as vezes da música. Com um copo de cerveja na mão, tudo parece uma sinfonia de Mozart.

Como pretendia dar-me algum trabalho intelectual antes da aula - que só iniciava às oito e meia - fui instalar-me na biblioteca. Remodelaram a entrada. Puseram um vidro no lugar da antiga passagem e abriram caminho à direita de quem entra, de modo que agora se sai e se entra sob escrutínio frontal dos funcionários. Entro com alguns livros e uma banana nas mãos. Comento as obras recentes e as futuras na biblioteca com o funcionário do balcão e encaminho-me para o piso inferior. Quando faço a ronda em busca de uma mesa, uma das funcionárias instaladas junto aos cubículos das fotocopiadoras alerta-me para que não posso comer a banana dentro da biblioteca. Eu digo-lhe logo que não estava a comer a banana. Ela, para retorquir, reformulou a regra: afinal, eu não podia entrar com a banana. Vocês conhecem-me. Ou não. Exasperei-me. Pedi-lhe que me mostrasse onde estava escrita essa proibição. Ela puxou uma das brochuras que elucidam sobre as regras de funcionamento da biblioteca e apontou-me uma linha, em que, na verdade, apenas se proibia comer e beber dentro da biblioteca. Retorno ao meu argumento original. Ela insiste. Eu insisto. Ela desiste. Eu prossigo, exibindo a banana para quem a quisesse ver. Entretanto, por um acaso, percebo que tenho que sair da biblioteca. Vejo que a tal funcionária a preceder-me na escadaria que conduz ao piso de cima. Vejo-a a dirigir-se ao balcão. Foi pedir diligências ao funcionário-chefe. Não faço mais nada, atalho. Meto-me na conversa e digo ao velho que, como bom jurista, pedi que a funcionária me mostrasse a regra, mas que, não se preocupasse, eu iria sair e aproveitaria para deglutir a banana entretanto. Tudo acaba em pacífica cavaqueira, comigo e com o homem a selar-nos as nossas boas relações e a jovem a ter que se contentar com a derrota. São muitos anos, mesmo muitos, os que levo disto. A veterania não é só uma palavra.

Em quase dez anos de Faculdade, foram raríssimas as ocasiões em que proclamaram vazios os barris no Velho e no Novo às seis e meia da tarde. Aconteceu nesse dia. A veteranada, a caloirada, os forasteiros haviam conjuntamente sorvido a cerveja até à última gota. Tive que me socorrer das médias do Novíssimo, vendidas ao dobro do preço. Fui, então, encostar-me ao parapeito que dá vista para a Alameda. Dava vista para a multidão vibrante e ouvido para a barulheira festiva. Acabei lá no meio algumas horas depois, como é evidente. Sou um homem de tradições.

II. Do beijinho

De ano a ano, o alfarrabista de Letras vem instalar-se durante uma semana no terreno inóspito da Faculdade de Direito. Coliga umas mesas em forma de meia-lua ao pé do corredor para a biblioteca e sobre elas empilha as suas preciosidades empoeiradas, exibindo capas esbatidas pelo tempo, estampadas com nomes de mortos. Títulos de ficção, claro, e de não-ficção, mas de qualidade, não porcarias jurídicas. Um oásis nas cercanias de tanto papel de embrulho. Deparei-me com a venda no regresso da biblioteca e imediatamente me pus a escrutinar a mercadoria. Enquanto os meus olhos percorriam lombadas, o meu par de ouvidos atentos seguia a pista de um diálogo nas proximidades. Uma jovem docente da casa, doutorada de fresco, com aparições ocasionais nos nossos televisores, referia em conversa com um antigo Director da Faculdade aquele que, no seu douto entendimento, é um dos flagelos da sociedade moderna. «Não há nada mais ridículo», dizia ela, mais ou menos, «que o som do beijinho quando as pessoas se cumprimentam». E elaborando esta asserção espantosa, continuou, dizendo: «A maior parte das pessoas já não beija verdadeiramente a cara da outra. Aproximam a cara, e já está. Porque é que continuam a fazer o som do beijo?» Deveras. Enfio o “General Theory” do Keynes debaixo do braço - comprei-o a dez euros - e parto, meditabundo. 

Aula de mestrado. O professor é aquilo que se poderia classificar como um homem que faz apartes muito compridos. Começa a falar da matéria, até ao momento em que se perde por caminhos na floresta. Quando retorna ao trilho das migalhas, já consumiu meia hora a dissertar sobre assuntos interessantíssimos que nada têm a ver com o programa. O objecto da disciplina, técnico, dilui-se em um conjunto de opiniões genéricas sobre os privilégios da burocracia nacional e a malevolência das grandes empresas. De repente, encontramo-nos apenas um grau acima de uma conversa na esplanada. Impossível acompanhar estes raciocínios, quanto mais não fora porque não entregou programa aos alunos, nem sugeriu a correspondente bibliografia. Sequestra-nos na sala antes da hora de início e até depois da hora de fim, e nem sequer com o intuito de nos servir a teoriazinha geral, porque já se anuncia que tudo virá a ser, tão só, uma descrição maçadora, e extensamente entrecortada pelas anedotas do expositor, do regime jurídico português. As colegas, sabidas, aproveitam a boleia da conversa para aparentarem interesse e conhecimento de causa. São vividas. Falar compensa. Às vezes, compensa mais do que estudar. A ars inveniendi sempre foi moeda corrente entre estas vetustas paredes.

Saio. Nove e meia. A penumbra da noite caiu como uma cortina sobre a alameda. Clarões eléctricos, a espaços, cercavam-na, como uma cerimónia das velas. Encaminho-me para o Metro, pensativo. Aquilo do ruído oscular ainda me está a moer o juízo, acreditam?

I. Da praxe

Reabro a porta, como estudante, depois das seis da tarde de cada dia. Atravessei o átrio na Segunda-feira, dando passos cautelosos sobre um chão borrado de farinha empastada, que três raparigas tentavam afanosamente limpar. Regressei na Terça-feira, após o primeiro dia de aulas, após a praxe oficial, após o corredor da morte e a cerimónia das velas.

Sento-me a uma mesa do Velho, de rosto voltado para a porta que abre à esplanada. Essa abertura é uma soma de vultos negros, compondo uma fila mais longa que o costume para ir tirar cerveja ao balcão. O que observo é aquele selecto grupo de veteranos – olho-os a todos com secreta ironia, espreitando sobre os meus nove anos de Clássica – que insiste em prolongar a praxe para lá do primeiro dia.

Desde a porta vêm a desfilar as veteranas, com o relevo de um seio a emergir na camisa branca, debruada a negro por um colete. Vêm com os olhos escondidos atrás de umas lentes escuras, como se a humanidade não fosse digna de uma vista nua, e passeiam o ar de arrogância de quem se julga senhora do mundo, só porque se é senhora da praxe. O que é a vida senão contentar-se com estas pequenas ilusões? Já no semblante dos veteranos se vai desenhando a bonomia ébria que termina inevitavelmente num charco do próprio vómito, no fracasso de todas as esperanças de seduzir a melhor caloira.

Subo para a minha sala. É a sala 11.06. Os brasileiros já lá estão, sentados nas carteiras inamovíveis, esperando antes da hora. Alimentam uma imagem tão favorável quanto falsa da pontualidade portuguesa, que julgam regular-se por um padrão europeu. Mas à Europa não pertencemos; daí existir Brasil. Não lho faço notar. Imito-os e sento-me. Suspeito, sei, quando relanceio discretamente a sala em volta, que o professor não virá. Ainda no dia anterior, o Frederico, que cruzou por mim no Velho, me avisou: «É a primeira semana». E os professores - ou alguns deles - aprovam o dito infame de que «a primeira aula não se dá e a última não se recebe», julgando prolongar no tempo, com a sua abstenção, um costume divertido da academia, porventura tão antigo quanto Bolonha – a universidade – e que seria sacrílego quebrar.

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Uma colega dirige-me uma pergunta. No uso impessoal das formas verbais, denuncia-se: trata-me por você. Não o doce você da pronúncia brasileira, pois tão nativa era quanto eu. Uma náusea me desponta. Uma flexão de reverência pelos meus provectos vinte e sete anos? Ou a aplicação de uma película fina, mas não subtil, de formalidade altiva, a que julga apropriada a acompanhar as conversas entre diplomados? Não estou à altura de descrever as saudades que tenho de receber um fresco “tu” no rosto, uma segunda pessoa do singular a talhar com desenvoltura cada verbo, como nos primeiros dias de Faculdade, em que ninguém cercava de cautelas a incipiência dos nossos dezoito anos.

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À passagem da estação ferroviária de Entrecampos, contemplo à distância um desses jovens trajados, a velar por uma veterana de expressão repugnada, que vomitava para o respiradouro do Metro. Acode-me uma genuína, madura satisfação, a de quem vê o universo corroborar os seus preconceitos.