De ano a ano, o alfarrabista de Letras vem instalar-se durante uma semana no terreno inóspito da Faculdade de Direito. Coliga umas mesas em forma de meia-lua ao pé do corredor para a biblioteca e sobre elas empilha as suas preciosidades empoeiradas, exibindo capas esbatidas pelo tempo, estampadas com nomes de mortos. Títulos de ficção, claro, e de não-ficção, mas de qualidade, não porcarias jurídicas. Um oásis nas cercanias de tanto papel de embrulho. Deparei-me com a venda no regresso da biblioteca e imediatamente me pus a escrutinar a mercadoria. Enquanto os meus olhos percorriam lombadas, o meu par de ouvidos atentos seguia a pista de um diálogo nas proximidades. Uma jovem docente da casa, doutorada de fresco, com aparições ocasionais nos nossos televisores, referia em conversa com um antigo Director da Faculdade aquele que, no seu douto entendimento, é um dos flagelos da sociedade moderna. «Não há nada mais ridículo», dizia ela, mais ou menos, «que o som do beijinho quando as pessoas se cumprimentam». E elaborando esta asserção espantosa, continuou, dizendo: «A maior parte das pessoas já não beija verdadeiramente a cara da outra. Aproximam a cara, e já está. Porque é que continuam a fazer o som do beijo?» Deveras. Enfio o “General Theory” do Keynes debaixo do braço - comprei-o a dez euros - e parto, meditabundo.
Aula de mestrado. O professor é aquilo que se poderia classificar como um homem que faz apartes muito compridos. Começa a falar da matéria, até ao momento em que se perde por caminhos na floresta. Quando retorna ao trilho das migalhas, já consumiu meia hora a dissertar sobre assuntos interessantíssimos que nada têm a ver com o programa. O objecto da disciplina, técnico, dilui-se em um conjunto de opiniões genéricas sobre os privilégios da burocracia nacional e a malevolência das grandes empresas. De repente, encontramo-nos apenas um grau acima de uma conversa na esplanada. Impossível acompanhar estes raciocínios, quanto mais não fora porque não entregou programa aos alunos, nem sugeriu a correspondente bibliografia. Sequestra-nos na sala antes da hora de início e até depois da hora de fim, e nem sequer com o intuito de nos servir a teoriazinha geral, porque já se anuncia que tudo virá a ser, tão só, uma descrição maçadora, e extensamente entrecortada pelas anedotas do expositor, do regime jurídico português. As colegas, sabidas, aproveitam a boleia da conversa para aparentarem interesse e conhecimento de causa. São vividas. Falar compensa. Às vezes, compensa mais do que estudar. A ars inveniendi sempre foi moeda corrente entre estas vetustas paredes.
Saio. Nove e meia. A penumbra da noite caiu como uma cortina sobre a alameda. Clarões eléctricos, a espaços, cercavam-na, como uma cerimónia das velas. Encaminho-me para o Metro, pensativo. Aquilo do ruído oscular ainda me está a moer o juízo, acreditam?
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