quinta-feira, 4 de outubro de 2018

I. Da praxe

Reabro a porta, como estudante, depois das seis da tarde de cada dia. Atravessei o átrio na Segunda-feira, dando passos cautelosos sobre um chão borrado de farinha empastada, que três raparigas tentavam afanosamente limpar. Regressei na Terça-feira, após o primeiro dia de aulas, após a praxe oficial, após o corredor da morte e a cerimónia das velas.

Sento-me a uma mesa do Velho, de rosto voltado para a porta que abre à esplanada. Essa abertura é uma soma de vultos negros, compondo uma fila mais longa que o costume para ir tirar cerveja ao balcão. O que observo é aquele selecto grupo de veteranos – olho-os a todos com secreta ironia, espreitando sobre os meus nove anos de Clássica – que insiste em prolongar a praxe para lá do primeiro dia.

Desde a porta vêm a desfilar as veteranas, com o relevo de um seio a emergir na camisa branca, debruada a negro por um colete. Vêm com os olhos escondidos atrás de umas lentes escuras, como se a humanidade não fosse digna de uma vista nua, e passeiam o ar de arrogância de quem se julga senhora do mundo, só porque se é senhora da praxe. O que é a vida senão contentar-se com estas pequenas ilusões? Já no semblante dos veteranos se vai desenhando a bonomia ébria que termina inevitavelmente num charco do próprio vómito, no fracasso de todas as esperanças de seduzir a melhor caloira.

Subo para a minha sala. É a sala 11.06. Os brasileiros já lá estão, sentados nas carteiras inamovíveis, esperando antes da hora. Alimentam uma imagem tão favorável quanto falsa da pontualidade portuguesa, que julgam regular-se por um padrão europeu. Mas à Europa não pertencemos; daí existir Brasil. Não lho faço notar. Imito-os e sento-me. Suspeito, sei, quando relanceio discretamente a sala em volta, que o professor não virá. Ainda no dia anterior, o Frederico, que cruzou por mim no Velho, me avisou: «É a primeira semana». E os professores - ou alguns deles - aprovam o dito infame de que «a primeira aula não se dá e a última não se recebe», julgando prolongar no tempo, com a sua abstenção, um costume divertido da academia, porventura tão antigo quanto Bolonha – a universidade – e que seria sacrílego quebrar.

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Uma colega dirige-me uma pergunta. No uso impessoal das formas verbais, denuncia-se: trata-me por você. Não o doce você da pronúncia brasileira, pois tão nativa era quanto eu. Uma náusea me desponta. Uma flexão de reverência pelos meus provectos vinte e sete anos? Ou a aplicação de uma película fina, mas não subtil, de formalidade altiva, a que julga apropriada a acompanhar as conversas entre diplomados? Não estou à altura de descrever as saudades que tenho de receber um fresco “tu” no rosto, uma segunda pessoa do singular a talhar com desenvoltura cada verbo, como nos primeiros dias de Faculdade, em que ninguém cercava de cautelas a incipiência dos nossos dezoito anos.

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À passagem da estação ferroviária de Entrecampos, contemplo à distância um desses jovens trajados, a velar por uma veterana de expressão repugnada, que vomitava para o respiradouro do Metro. Acode-me uma genuína, madura satisfação, a de quem vê o universo corroborar os seus preconceitos.

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