quinta-feira, 4 de outubro de 2018

III. Da aula magna

Vocês conhecem-me. Ou talvez não. Não importa. O que importa é que um destes dias fui à Clássica para assistir à primeira aula do meu Mestrado. Acabei a beber copos. Se me conhecessem, saberiam que o desenlace seria forçosamente este.

Emergi do Metro da Cidade Universitária pouco depois das seis da tarde. Os restos da aula magna do Marcelo escoavam-se em trajes negros e colares de Doutor, desde a entrada frontal da Reitoria até à Faculdade de Direito, num fiozinho estreito e intermitente. Sobre o novo empedrado da Alameda, erguera-se um palco. Uma multidão de veteranos e caloiros agitava-se na sua sombra, electrificada por aquele ruído a fazer as vezes da música. Com um copo de cerveja na mão, tudo parece uma sinfonia de Mozart.

Como pretendia dar-me algum trabalho intelectual antes da aula - que só iniciava às oito e meia - fui instalar-me na biblioteca. Remodelaram a entrada. Puseram um vidro no lugar da antiga passagem e abriram caminho à direita de quem entra, de modo que agora se sai e se entra sob escrutínio frontal dos funcionários. Entro com alguns livros e uma banana nas mãos. Comento as obras recentes e as futuras na biblioteca com o funcionário do balcão e encaminho-me para o piso inferior. Quando faço a ronda em busca de uma mesa, uma das funcionárias instaladas junto aos cubículos das fotocopiadoras alerta-me para que não posso comer a banana dentro da biblioteca. Eu digo-lhe logo que não estava a comer a banana. Ela, para retorquir, reformulou a regra: afinal, eu não podia entrar com a banana. Vocês conhecem-me. Ou não. Exasperei-me. Pedi-lhe que me mostrasse onde estava escrita essa proibição. Ela puxou uma das brochuras que elucidam sobre as regras de funcionamento da biblioteca e apontou-me uma linha, em que, na verdade, apenas se proibia comer e beber dentro da biblioteca. Retorno ao meu argumento original. Ela insiste. Eu insisto. Ela desiste. Eu prossigo, exibindo a banana para quem a quisesse ver. Entretanto, por um acaso, percebo que tenho que sair da biblioteca. Vejo que a tal funcionária a preceder-me na escadaria que conduz ao piso de cima. Vejo-a a dirigir-se ao balcão. Foi pedir diligências ao funcionário-chefe. Não faço mais nada, atalho. Meto-me na conversa e digo ao velho que, como bom jurista, pedi que a funcionária me mostrasse a regra, mas que, não se preocupasse, eu iria sair e aproveitaria para deglutir a banana entretanto. Tudo acaba em pacífica cavaqueira, comigo e com o homem a selar-nos as nossas boas relações e a jovem a ter que se contentar com a derrota. São muitos anos, mesmo muitos, os que levo disto. A veterania não é só uma palavra.

Em quase dez anos de Faculdade, foram raríssimas as ocasiões em que proclamaram vazios os barris no Velho e no Novo às seis e meia da tarde. Aconteceu nesse dia. A veteranada, a caloirada, os forasteiros haviam conjuntamente sorvido a cerveja até à última gota. Tive que me socorrer das médias do Novíssimo, vendidas ao dobro do preço. Fui, então, encostar-me ao parapeito que dá vista para a Alameda. Dava vista para a multidão vibrante e ouvido para a barulheira festiva. Acabei lá no meio algumas horas depois, como é evidente. Sou um homem de tradições.

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