terça-feira, 3 de março de 2020

VII. Do beijinho, agora banido

Nunca fui atreito aos beijos de circunstância social ou aos seus simulacros. Este tempo em que todos os beijos podem ser de Judas, entregando-nos a hostes de médicos, enfermeiros e burocratas vários, empenhados em demonstrar nas nossas pessoas a eficácia do sistema de saúde e a preparação do governo, vêm confirmar-me com brilho. Sempre me pareceu que essa breve união dos rostos dissimulava a realidade do meu profundo isolamento dentro da massa, com a ambiguidade de um gesto que, servindo para expressar a maior intimidade, serve também para expressar o mais supérfluo dos encontros. O vírus não vem isolar-nos ou desumanizar-nos: isolados, desumanizados, nós estamos, como inevitável condição urbana, em que o outro se apresenta mais facilmente como incómodo ou armadilha; agora, simplesmente, o gesto exterior harmoniza-se com a disposição do espírito – o outro realça-se mais facilmente como desconhecido, balançando entre a insignificância e o perigo – assalta-nos, em todo o esplendor, a repugnância da massa, da qual, para todos os demais, somos também nós um dos inumeráveis braços.

segunda-feira, 2 de março de 2020

VI. Do amigo assistente

Estive em Coruche, na tarde de Domingo, na apresentação do seu primeiro livro de poemas. É um bom amigo, de muitos anos, um dos poucos que me resta: estou a duas, três companhias de distância de uma irremediável solidão.

A um tempo, fiquei curioso e satisfeito por ver que tem um sítio onde tornar, onde há gente que se recorda de o ver pequeno, dos seus primeiros sucessos escolares, de trocar o seu nome com o do irmão mais velho. Quando eu, na tarde de um Domingo, quiser apresentar o meu primeiro livro, não terei onde tornar. Não haverá muitos para contar uma história da minha infância, para notar uma constante da minha personalidade, para lembrar um diminuto êxito que, na sua singeleza, sugeria um futuro grandioso.

Apresentou o livro apenas poucos dias depois de saber que daria aulas na Clássica. É a confirmação tardia e quase incidental dos seus méritos académicos. Tenho a certeza que será feliz; e tenho a certeza de que se tivesse recusado o convite, permanecendo instalado no mesmo emprego medíocre, teria denegado a sua própria razão de ser. 

Agora, cruzarmo-nos-emos no átrio da Clássica muitas vezes. Ele vindo das suas aulas; eu indo para as minhas. Ele para as dar; eu para as receber. Ou não nos cruzaremos de todo. Talvez as nossas vidas caminhem em sentido divergente, em contramão com o destino que planeámos. Talvez lhe nasçam, da nova função, novas companhias. 

Seja o que for, é inescapável a evidência de que o seu caminho passaria entre as portas da frente da Faculdade de Direito. Novamente, ela revela-se como o entroncamento das nossas biografias.

Quando sairei, verdadeira, definitivamente dela?

V. Dos brasileiros

Aí estão, sentados às mesas, afáveis e loquazes. Desejo, sinceramente, ser como eles. Gostava de ter essa facilidade em estender uma mão, em abrir um sorriso que não fosse só de cordialidade, mas de franco regozijo com a presença desse outro que me fala e que, uma vez por outra, me ouve. Mas não me é possível: ou já nasci assim ou, em alternativa, algum facto perdido nos anos da minha infância o explica.

Falam-nos de uma possibilidade maravilhosa: de um continente de distâncias incomensuráveis, cujos caminhos nos tiram dezenas de horas, porventura dias, apenas no trânsito de uma cidade a outra. Este vem do sul; aquele do centro; aquele do nordeste; vêm de todos os pontos cardeais; mas desconhecem mutuamente as suas regiões nativas, como se tivessem vindo de países distintos, como se a língua não vibrasse o mesmo verbo, como se não tivessem cruzado o mesmo oceano, como se a sua pátria não se compreendesse sob um só nome, como se para nós não pertencessem todos a uma só categoria.

Como nós nos encantamos com a vastidão, que nos parece uma sementeira de aventuras, também eles se encantam com o nosso tamanho económico, tragável, tipicamente europeu. Quando lhes digo que este nosso Portugal tem a cintura esguia de uma bailarina, que nem um par de horas é preciso para se estar no estrangeiro, na Espanha, exclamam com a boca, com os olhos, com todo o rosto a sua surpresa. Quando lhes observo que, no tempo de uma aula de licenciatura, pouco menos de uma hora, o avião que descola em Lisboa aterra em Madrid, prometem comprar bilhetes, porque isto lhes parece o perfeito antídoto para esse cansaço do país-continente.

Têm algumas, poucas queixas. Não conheciam, por exemplo, a face fria do Atlântico. Mas esta queixa tem remédio, assevero-lhes: à medida que se progride para o sul, também o mar aquece, transportando um laivo do sol de África. Faço-lhes notar que o Algarve não é distante, como nada aqui o é, e há comboio.

Tudo isto se passou no espaço de uma espera, meia hora, mais ou menos, no término da qual o professor não veio, como é costume. Preveni-os contra a recalcitrância do docente nesta matéria: faltará muitas mais vezes e, se se dignar a aparecer, só depois de se fazer esperar, como uma noiva das eras antigas. Sempre sem avisar previamente, como se impõe. 

Cruzar um oceano valeria bem conhecer a excelência nas práticas de ensino. Mas irão antes conhecer as tradições da casa.