terça-feira, 3 de março de 2020

VII. Do beijinho, agora banido

Nunca fui atreito aos beijos de circunstância social ou aos seus simulacros. Este tempo em que todos os beijos podem ser de Judas, entregando-nos a hostes de médicos, enfermeiros e burocratas vários, empenhados em demonstrar nas nossas pessoas a eficácia do sistema de saúde e a preparação do governo, vêm confirmar-me com brilho. Sempre me pareceu que essa breve união dos rostos dissimulava a realidade do meu profundo isolamento dentro da massa, com a ambiguidade de um gesto que, servindo para expressar a maior intimidade, serve também para expressar o mais supérfluo dos encontros. O vírus não vem isolar-nos ou desumanizar-nos: isolados, desumanizados, nós estamos, como inevitável condição urbana, em que o outro se apresenta mais facilmente como incómodo ou armadilha; agora, simplesmente, o gesto exterior harmoniza-se com a disposição do espírito – o outro realça-se mais facilmente como desconhecido, balançando entre a insignificância e o perigo – assalta-nos, em todo o esplendor, a repugnância da massa, da qual, para todos os demais, somos também nós um dos inumeráveis braços.

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