Nunca fui atreito aos beijos de circunstância social ou aos seus simulacros. Este tempo em que todos os beijos podem ser de Judas, entregando-nos a hostes de médicos, enfermeiros e burocratas vários, empenhados em demonstrar nas nossas pessoas a eficácia do sistema de saúde e a preparação do governo, vêm confirmar-me com brilho. Sempre me pareceu que essa breve união dos rostos dissimulava a realidade do meu profundo isolamento dentro da massa, com a ambiguidade de um gesto que, servindo para expressar a maior intimidade, serve também para expressar o mais supérfluo dos encontros. O vírus não vem isolar-nos ou desumanizar-nos: isolados, desumanizados, nós estamos, como inevitável condição urbana, em que o outro se apresenta mais facilmente como incómodo ou armadilha; agora, simplesmente, o gesto exterior harmoniza-se com a disposição do espírito – o outro realça-se mais facilmente como desconhecido, balançando entre a insignificância e o perigo – assalta-nos, em todo o esplendor, a repugnância da massa, da qual, para todos os demais, somos também nós um dos inumeráveis braços.
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