Estive em Coruche, na tarde de Domingo, na apresentação do seu primeiro livro de poemas. É um bom amigo, de muitos anos, um dos poucos que me resta: estou a duas, três companhias de distância de uma irremediável solidão.
A um tempo, fiquei curioso e satisfeito por ver que tem um sítio onde tornar, onde há gente que se recorda de o ver pequeno, dos seus primeiros sucessos escolares, de trocar o seu nome com o do irmão mais velho. Quando eu, na tarde de um Domingo, quiser apresentar o meu primeiro livro, não terei onde tornar. Não haverá muitos para contar uma história da minha infância, para notar uma constante da minha personalidade, para lembrar um diminuto êxito que, na sua singeleza, sugeria um futuro grandioso.
Apresentou o livro apenas poucos dias depois de saber que daria aulas na Clássica. É a confirmação tardia e quase incidental dos seus méritos académicos. Tenho a certeza que será feliz; e tenho a certeza de que se tivesse recusado o convite, permanecendo instalado no mesmo emprego medíocre, teria denegado a sua própria razão de ser.
Agora, cruzarmo-nos-emos no átrio da Clássica muitas vezes. Ele vindo das suas aulas; eu indo para as minhas. Ele para as dar; eu para as receber. Ou não nos cruzaremos de todo. Talvez as nossas vidas caminhem em sentido divergente, em contramão com o destino que planeámos. Talvez lhe nasçam, da nova função, novas companhias.
Seja o que for, é inescapável a evidência de que o seu caminho passaria entre as portas da frente da Faculdade de Direito. Novamente, ela revela-se como o entroncamento das nossas biografias.
Quando sairei, verdadeira, definitivamente dela?
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