segunda-feira, 2 de março de 2020

V. Dos brasileiros

Aí estão, sentados às mesas, afáveis e loquazes. Desejo, sinceramente, ser como eles. Gostava de ter essa facilidade em estender uma mão, em abrir um sorriso que não fosse só de cordialidade, mas de franco regozijo com a presença desse outro que me fala e que, uma vez por outra, me ouve. Mas não me é possível: ou já nasci assim ou, em alternativa, algum facto perdido nos anos da minha infância o explica.

Falam-nos de uma possibilidade maravilhosa: de um continente de distâncias incomensuráveis, cujos caminhos nos tiram dezenas de horas, porventura dias, apenas no trânsito de uma cidade a outra. Este vem do sul; aquele do centro; aquele do nordeste; vêm de todos os pontos cardeais; mas desconhecem mutuamente as suas regiões nativas, como se tivessem vindo de países distintos, como se a língua não vibrasse o mesmo verbo, como se não tivessem cruzado o mesmo oceano, como se a sua pátria não se compreendesse sob um só nome, como se para nós não pertencessem todos a uma só categoria.

Como nós nos encantamos com a vastidão, que nos parece uma sementeira de aventuras, também eles se encantam com o nosso tamanho económico, tragável, tipicamente europeu. Quando lhes digo que este nosso Portugal tem a cintura esguia de uma bailarina, que nem um par de horas é preciso para se estar no estrangeiro, na Espanha, exclamam com a boca, com os olhos, com todo o rosto a sua surpresa. Quando lhes observo que, no tempo de uma aula de licenciatura, pouco menos de uma hora, o avião que descola em Lisboa aterra em Madrid, prometem comprar bilhetes, porque isto lhes parece o perfeito antídoto para esse cansaço do país-continente.

Têm algumas, poucas queixas. Não conheciam, por exemplo, a face fria do Atlântico. Mas esta queixa tem remédio, assevero-lhes: à medida que se progride para o sul, também o mar aquece, transportando um laivo do sol de África. Faço-lhes notar que o Algarve não é distante, como nada aqui o é, e há comboio.

Tudo isto se passou no espaço de uma espera, meia hora, mais ou menos, no término da qual o professor não veio, como é costume. Preveni-os contra a recalcitrância do docente nesta matéria: faltará muitas mais vezes e, se se dignar a aparecer, só depois de se fazer esperar, como uma noiva das eras antigas. Sempre sem avisar previamente, como se impõe. 

Cruzar um oceano valeria bem conhecer a excelência nas práticas de ensino. Mas irão antes conhecer as tradições da casa.

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